sexta-feira, 29 de março de 2013

Namoro

Há alguns anos entrei em contato com esse poema. O autor angolano, Viriato da Cruz, continua desconhecido, pelo menos para mim, mas o poema é lindo... dedico para aqueles que um dia viveram a espera de um SIM...


"Namoro
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim. "

sábado, 10 de março de 2012

OS DOIS LADOS

Deste lado tem meu corpo
tem o sonho
tem a minha namorada na janela
tem as ruas gritando de luzes e movimentos
tem meu amor tão lento
tem o mundo batendo na minha memória
tem o caminho pro trabalho

Do outro lado tem outras vidas vivendo da minha vida
tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão,
tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.

MENDES, Murilo. Poemas e Bumba-meu-poeta. Rio de Janeiro: Nova Fronteira

domingo, 6 de novembro de 2011

Definição: literatura é...



Sentimos uma necessidade imensa de definir, conceituar as coisas e pessoas. Precisamos definir as opções sexuais, os astros, as letras e
tudo que existe, inclusive Deus que, sabiamente, se definiu como aquele que é. Perece que isso é tão essencial quanto respirar. Mas o que não sabemos é que as definições esvaziam o sentido principal das coisas e pessoas. Não percebemos que as definições são tão exatas e as exceções não cabem nelas. As definições só servem para enquadrar um ponto de vista que se apresenta como único e verdadeiro.
Portanto, definir é esvaziar...
A necessidade de produção de conhecimento colabora muito para
a criação de conceitos. Pesquisas científicas, vivências religiosas ou
conhecimentos populares enquadram o mundo em definições. Vemos a partir de
outros olhares. Nem sempre nitidamente, mas vemos. Partindo desses
pressupostos, questões intrigantes se apresentam: é possível definir o que é arte? É possível conceituar a literatura?...

Acredito que isso é impossível... Mas como necessidade vital me
atrevo a definir esse mundo metafórico das palavras: literatura é... a arte do
não dito! Podem me chamar de insano, ou melhor, de louco mesmo. Pois, como uma
arte que modela palavras pode não dizer nada? Explico-me: Antônio Cândido
afirma que a maioria dos autores brasileiros é mais tático do que estrategista. Isso quer dizer que eles são movidos mais pela inspiração, pelo instinto, pelo pensamento, pela sensibilidade e subjetividade....do que pelo meios técnicos ou parnasianos, movimento fracassado na nossa literatura. Portanto, se nossos autores são tão subjetivos é impossível apresentar uma única versão, interpretação das suas
obras. É impossível invadir o pensamento do autor para saber o que ele quer, metaforicamente, dizer. A partir disso, surge a arte literária brasileira. Os vários sentidos que podemos extrair das obras brasileiras condiz com minha definição: literatura é a arte do não dito...

Alguém se atreve a dizer que minha definição é vazia?


terça-feira, 31 de maio de 2011

Encanto, coisa que delicia...


"Mas eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobêjo de esforço, fazia de conversar uma conversa adulta e antiga. Fui recebendo em mim o desejo de ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira – só meu companheiro amigo desconhecido” Riobaldo
O encanto acontece até mesmo em situações simples....dessas como uma conversa, uma apresentação ou um papo despretensioso....depois as dobras do encanto se desdobram numa afinidade, num encontro, na balada, no calor dos corpos mesmo sem se tocarem. O beijo então como união de calores num dia de frio. De repente, duas almas formam um amor. Almas que se juntam e se fecundam num só coração.
O encanto é inexplicavelmente uma surpresa... e isso é o melhor. Afinal, surpresas são sempre boas e importantes. Não é a toa que Deus virá como um ladrão, sem hora nem dia marcado, de surpresa. Também é de surpresa que a morte nos pega, mesmo quando já a esperamos. Mas a morte é boa? Talvez a morte seja a única surpresa não boa, mas ela é superável, pois é com tal surpresa que o amor é mais forte que a morte.
Não há vida sem encanto, sem feitiço...como não há vida sem amor, esperança. Por isso, cada um se enfeitiça de algo, de alguém... é como se fosse uma ordem natural! Todos sentimos essa necessidade! Uns se deixam seduzir por coisas simples, outros por sonhos irrealizáveis, mas com realidade ou sonho, o encanto é fundamental e...
o amor necessita de encanto...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O MELHOR DE “SE”

Se todas as preocupações fossem despreocupadas
Se todos os sentimentos, intensos
Se as pessoas, sinceras
O mundo seria melhor, menos denso.

O melhor é hipótese
Que o "se" explica
Ou complica!
Afinal, é suposição!



domingo, 16 de maio de 2010

Com que moral?

Peço licença nesse espaço literário para comentar uma declaração inesperada de um religioso. Li, recentemente, que na Assembleia Geral da CNBB, dom Dadeus, arcebispo de Porto Alegre, fez a seguinte declaração: “Antigamente, não se falava em homossexual. E era discriminado. Quando se começa a dizer que eles têm direitos, direitos de se manifestar publicamente, daqui a pouco vão achar os direitos dos pedófilos”. Uma afirmação infeliz e ignorante.

Em parte o arcebispo está certo. Digo em parte porque direitos de se manifestar publicamente todos as pessoas têm. Afinal isso é garantido pela Constituição Federal que apresenta direitos de liberdade de manifestação do pensamento, da criação, da expressão e da informação. Incluo nesse assunto, para ilustrar, uma manifestação inédita que presenciei no sábado passado em Belo Horizonte. Um grupo de manifestantes subia a Afonso Pena cantando: “Eu sou maconheiro com muito orgulho, com muito amor”. Era uma manifestação para a legalização da maconha, devidamente organizada e com proteção policial. Isso é importante lembrar. Eles estavam exercendo o direito da manifestação pública.

Por outro lado, o bispo ao dizer que “antigamente não se falava em homossexual” está cometendo um grande erro, pois o homossexualismo é uma prática demasiadamente relatada na literatura e na história. Safo, maior poetisa lírica da Antigüidade e reconhecida até por Platão, já manifestava o sentimento homossexual pela sua aluna Átis. Isso antes de Cristo. Posso afirmar que esse homossexualismo é noutro contexto, mas não deixa de ser uma manifestação dos sentimentos, afinal os poemas de Safo relatam esse amor proibido e impossível por Átis. Talvez a antiguidade do bispo seja outra.

O que mais incomoda na manifestação do religioso é a comparação entre os direitos conquistados pelos homossexuais com os pedófilos. Isso demonstra outra grande ignorância de um bispo que pode ser considerado um sujeito estudado e que apresenta autoridade. Ignorância porque ele iguala um grupo consciente e que defende a diversidade com outro grupo de pessoas doentes e permissivas. Talvez o bispo esteja preocupado em se defender, afinal os escândalos atuais de pedofilia no Brasil e no mundo envolvem a Igreja. Isso fica claro porque na mesma 48° Assembleia da CNBB ele manifesta seu posicionamento: “A Igreja ir lá e acusar seus próprios filhos seria um pouco estranho”. Dom Dadeus parece um pouco desesperado e perdido nos acontecimentos atuais e históricos.

Enfim, o posicionamento do arcebispo é o mesmo que o da Igreja na Idade Média a qual por volta do século XI queimou toda a obra de Safo. Obra reunida pelos Alexandrinos e que graças a pesquisas no século XIX de arqueólogos britânicos descobriram cerca de seiscentos versos, o bastante para considerá-la como a maior poetisa lírica da Antigüidade. Acredito que dentro desse contexto dom Dadeus deveria falar o que pensa e defender a moral cristã, mas pensar como fala é importante para que a Igreja continue a defender o direito de todos à igualdade. Portanto homossexualismo é coisa antiga que só o bispo não ouviu falar e por isso faz comparações indevidas, mesmo sem moral para isso.

domingo, 2 de maio de 2010

Poeta, poetinha camarada...

As obras de Vinicus de Moraes estão disponiveis na Brasiliana Digital (USP). O internauta tem acesso irrestrito a um acervo de livros, periódicos e manuscritos de autores diversos. O acervo é composto por obras da USP e do grande José Mindlin. Livros digitais com edições, às vezes, inéditas.


A obra do Vinicis de Moraes, desde seu primeiro livro em 1933, já está disponivel. Acesse e conheça mais a obra desse grande dramatrugo, poeta e músico da nossa modernidade.




segunda-feira, 5 de abril de 2010

Evidências


Gosto da vida! Respirar...expirar...! Um dinamismo despretensioso, mas que de tão belo transforma a beleza. Gosto da vida. Ela é simples e difícil, o contrário, a morte, é tão fácil. Mas pela dificuldade é que gosto da vida: “Você comerá o pão com o suor do seu rosto”, palavras benditas! Não sei se antes delas a vida era tão completa. Gosto da vida, mesmo com toda crueldade presente nos corações dos viventes. Sei que o humano é mal, mas a vida não deixa de ser bela por isso. Gosto, sim, da vida! Ela me faz perceber, aos poucos, que nas veias do tempo ela se esvai e deixa experiências nos mais velhos e vitalidade nos mais moços. Sei que, apesar disso, ela é curta para alguns e demasiadamente longa para outros. Injusta? Não! Adequada! Gosto da vida, como ela é, como se apresenta em cada circunstância, mesmo naquelas que viver não se faz necessário. Gosto da vida porque ela é incerta e os racionais viventes buscam certezas momentâneas jurando, várias vezes, amores eternos sem saber que o eterno sempre acaba! Viver, como dizia um jagunço, é muito perigoso!

Clóvis Magalhães
04-2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

BUSCANDO A CRISTO


GREGÓRIO DE MATOS (1623-1669)

A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos,

Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.


A vós, divinos olhos, eclipsados

De tanto sangue e lagrimas abertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos,

E, por não condenar-me, estais fechados,


A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me.


A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.

segunda-feira, 8 de março de 2010

CORA CORALINA: EXEMPLO DE MULHER

(Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas), 20/08/1889 — 10/04/1985, é a grande poetisa do Estado de Goiás. Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano, tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A Rosa”. Cora Coralina era chamada Aninha da Ponte da Lapa. Tendo apenas instrução primária e sendo doceira de profissão comprava doces das rejeitadas prostitutas para vendê-los.
Em 1911 conhece o advogado divorciado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem foge. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos. Seu marido a proíbe de integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1928 muda-se para São Paulo (SP). Em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José Olimpio que, em 1965, aos 76 anos, lança seu primeiro livro, "O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais”.


Mulher da Vida, minha irmã (Cora Coralina)


De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.
Mulher da Vida, minha irmã.
Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.
Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos
caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.
Flor sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da
Terra.
Um dia, numa cidade longínqua, essa
mulher corria perseguida pelos homens
que a tinham maculado.
Aflita, ouvindo o tropel
dos perseguidores e o sibilo das
pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.
A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.
As pedras caíram
e os cobradores deram as costas.
O Justo falou então a palavra de eqüidade:
“Ninguém te condenou, mulher...
nem eu te condeno”.
A Justiça pesou
a falta pelo peso do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.
Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.
Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.
Mulher da Vida, minha irmã.
No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.
E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrurível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.
Mulher da Vida, minha irmã.
Declarou-lhe Jesus: “Em verdade vos digo
que publicanos e meretrizes vos
precedem no Reino de Deus”. Evangelho de São Mateus 21, ver.31.

Poesia dedicada, por Coralina, ao Ano Internacional da Mulher em 1975.
Poemas dos becos de Goiás, Global, 1983 - S.Paulo, Brasil


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Blá-blá-blá...


"Há oradores que, terminando o discurso, deviam ser presos por terem roubado o tempo da gente"
Sergio Porto, escritor
"Tô cansado de tanta caretice, tanta babaquice Desta eterna falta do que falar"
Cazuza, cantor e compositor

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Literatura e Carnaval: Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis

da

Ontem, os desfiles do grupo especial do Rio de Janeiro tiveram como abre-alas a União da Ilha do Governador e, mais uma vez, a literatura recebe um carinho especial no carnaval brasileiro. Um clássico da literatura universal “Dom Quixote de La Mancha” foi a obra homenageada da noite. A escola, campeã do grupo de acesso no ano passado, levou para a avenida a história de aventuras de um fidalgo espanhol que apresentava, aproximadamente, cinquenta anos e, nos intervalos dos afazeres, gostava de ler livros de cavalaria. O prazer pela leitura cresceu tanto que o fidalgo vendeu parte de suas terras para comprar livros de cavalaria e enriquecer cada vez mais sua imaginação. Porém as histórias invadiram a imaginação do leitor que resolveu tornar-se um cavaleiro andante em busca das aventuras e viver tudo que havia lido. Esse cavaleiro escolheu o nome de Dom Quixote de La Mancha que montado no cavalo batizado por Rocinante e acompanhado pelo fiel escudeiro Sancho Pancha investiu em aventuras oníricas.

O cenário medieval e as tradições espanholas como touradas, castanholas e leques, instrumento de determinação feminina, enriqueceram a escola que soube levar para a Marquês de Sapucaí a história medieval do espanhol Miguel de Cervantes. A segunda obra mais comercializada no mundo foi publicada em dois volumes, em 1605 e 1615 e é uma sátira sobre os romances de cavalaria de muitos leitores daquela época. Um livro crítico que preza pelo lúdico da insensatez e pelo universo dos sonhos tão procurados pelos leitores.

Segue o samba-enredo para quem tem uma louca ilusão e um Quixote no coração!

Voltou a Ilha
Delira o povo de alegria
Nessa folia sou fidalgo, sou leitor
Cavaleiro sonhador
Meu mundo é de magia
Vou cavalgar no Rocinante
Meu escudeiro é Sancho Pança
Se Dulcineia é meu amor
Quem eu sou?
Dom Quixote de La Mancha
O gigante moinho me viu, deu no pé
O povo grita... Olé
Nesse feitiço tem castanhola
A bateria hoje deita e rola
Vesti a fantasia, fui à luta
Venci manadas, rebanhos
Fiz de uma bacia meu elmo de glórias
Meus livros se perderam pela história
Enfim, fui vencido pelo Branca Lua
Voltei pra casa esquecendo as aventuras
O tempo ficou com meus ideais
Quimeras são imortais

A Ilha vem cantar
Mais um sonho impossível... Sonhar!
Quem é que não tem uma louca ilusão
E um Quixote no seu coração


Autores: Grassano, Gabriel Fraga, Márcio André Filho, João Bosco, Arlindo Neto, Gugu das Candongas, Marquinhus do Banjo, Barbosão, Ito Melodia e Léo da Ilha

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Literatura e Carnaval: faces de uma moeda!



“Dos diversos instrumentos do homem, o mais
assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais
são extensão do seu corpo... mas o livro é outra
coisa, o livro é uma extensão da memória e da
imaginação”.
(Jorge Luís Borges
)

Em 1931, Jorge Amado, com apenas 19 anos de idade, lançava o livro “O País do Carnaval”. Esse romance apresenta a figura de Ricardo Braz, uma dos personagens do romance. Necessitado de carinho, verdadeiro peregrino do sentimento, tinha uma grande sede de amor. Para ele, a finalidade da vida nada tinha a ver com dinheiro, prestígio político ou prazeres - o sentido da vida estava no amor. Idealizava para si uma jovem de grandes olhos tristes e que fosse o tipo da esposa perfeita. E proclamava: "A satisfação da Carne não dá felicidade a ninguém". Ilustrando esse romance as cenas carnavalescas atuam como fundo de cenário.

Outros autores da literatura usaram o cenário e as personagens desta festa folclórica. Foi o caso do mineiro Aníbal Machado no conto "A Morte da Porta-Estandarte" o qual renova o tema universal do ciúme que, de tal modo irreprimível, a personagem se transforma em assassino da pessoa a quem se diz amar.

O poeta Manuel Bandeira também se apropriou do tema na edição de seu segundo livro "Carnaval". Mais tarde, o autor faria a seguinte declaração: "Com Carnaval", recebi o meu batismo de fogo". O poeta inicia seu livro com os seguintes versos: "Quero beber, cantar asneiras...”. O livro foi alvo de muitas criticas da sociedade letrada e admiradora da formalidade Parnasiana por apresentar o verso livre e libertinagens”.

Outros poetas também incluíram o carnaval em suas líricas. Raimundo Correia escreveu o soneto "Tristeza de Momo" uma figura da mitologia adaptada para o nosso carnaval. Já Vinícius de Moraes com a peça, "Orfeu da Conceição", foi premiado no IV Centenário da capital paulista.

Os autores da literatura brasileira não deixaram de admirar, cada um com uma abordagem, essa grande festa popular. Por outro lado a admiração é recíproca. Escolas de samba com características predominantemente populares e marcadas pela perspectiva da oralidade vislumbraram e transformaram a manifestação por excelência da cultura escrita, a literatura, em matéria de samba.

Varias obras e autores foram adaptados para enriquecer os enredos carnavalescos. Em 1952 a Mangueira levou para avenida a homenagem ao poeta Gonçalves Dias e seus poemas indianistas. Em 1976, o poeta Jorge de Lima foi contemplado pelo carnaval especificamente através da obra “Invenção de Orfeu” que virou samba da Unidos de Vila Isabel. “Os Sertões”, obra de Euclides da Cunha, com mais de quinhentas páginas contribuiu para a construção de um dos maiores sambas-enredo da escola “Em Cima da Hora”. A tradicional Portela, em 1966, não deixou de prestar sua homenagem à literatura através da obra “Memórias de um sargento de milícias” levando para a passarela do samba as peraltices da personagem Leonardo Pataca nos tempos do Rei. A Império Serrano repetiu a dose. Em seu primeiro carnaval, em 1948, a escola homenageou o poeta baiano Castro Alves e em 1989 apresentou o enredo “Jorge Amado, Axé Brasil”. O samba descreve uma grande festa ocorrida na tenda dos milagres com personagens consagrados do autor, tais como o pai-de-santo Jubiabá, Teresa Batista que dança um samba de roda com Tieta e o cambaleante Quincas Berro D Água, além de Gabriela e Dona Flor que dividem as panelas preparando o vatapá que vai alimentar aquela gente toda. O escritor baiano compareceu ao desfile, apresentando-se em um carro alegórico cercado de amigos e mães de santo e escoltado por Zélia Gattai, que desfilou com os trajes típicos da boa terra.

Anos mais tarde, em 2002, a mesma Império Serrano conseguiu levar um escritor pernambucano para a Marquês de Sapucaí – "Aclamação e Coroação do Imperador da Pedra do Reino: Ariano Suassuna" o enredo que contou com a presença do escritor e de sua mulher, Zélia. A Vila Isabel, em 1980 e a Mangueira, campeã do carnaval de 1987, homenagearam o poeta Carlos Drummond de Andrade mas não conseguiram de forma alguma arrastar para a folia o poeta de mineiro que em 87 já estava com a saúde debilitada.
No último carnaval, A Mocidade Independente de Padre Miguel juntou no mesmo enredo dois grandes nomes da literatura brasileira Machado de Assis e Guimarães Rosa. Este completou o centenário de nascimento e aquele da morte. Sinhazinhas, barões do Império, bacharéis e demais personagens do Bruxo do Cosme Velho dividiram a passarela com os jagunços e sertanejos Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro e Zé Bebelo. Personagens imortais das nossas letras.

Para finalizar essa parceria tão completa que apresenta “Histórias de amor sem ponto final”, a campeã do carnaval 2009 também apostou na literatura. Com o enredo “Histórias sem fim” a Salgueiro levará para a avenida a invenção da impressa por Gutemberg e as ricas fantasias que a literatura possibilita. Segue o samba enredo da escola e que no livro do carnaval sejam lidas páginas agradáveis e cheias de fantansias!!!
HISTÓRIAS SEM FIM (Salgueiro 2010)

Sonhei... no infinito das histórias
Iluminando a memória, me encantei
Brilhou... realidade e fantasia
Como nunca imaginei
Na arte do saber um novo amanhecer
Divina criação, primeira impressão
O livro sagrado da vidaVirtude pra eternidade
A leitura estimulandoA mente da humanidade
Eu viajei nessa magia
De alma e coração
Na fonte da sabedoria
Busquei a minha inspiração


Páginas descrevendo pensamentos
Clássicos, ideais e sentimentos
Romances... aventuras
Quanta riqueza na nossa literatura
O faz-de-conta inocente da criança
Ficou guardado na lembrança
Mistérios... suspense... emoção
É o hábito de ler, folheando com prazer
Muita além de uma visão
Mensagens de esperança
Clareando a imaginação


Uma história de amor
Sem ponto final"
Academia do samba" é Salgueiro
No "livro do meu carnaval"

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

FICÇÃO OU AUTOBIOGRAFIA AMOROSA?


A obra Marília de Dirceu é uma das mais belas da poesia árcade brasileira. Tomás Antonio de Gonzaga, poeta da inconfidência, a contruiu com fatos e sentimentos pessoais o que dificulta separar o biográfico da invenção poética. Mas para fazer versos tão gradiosos só sob forte inspiração:

"Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!"


Marilia, a musa da lírica, torna-se, assim, representação do amor, ou antes, do Amor do poeta. Ele volta-se para a namorada juvenil como se ela materializasse a idéia que ele faz do Amor. Na segunda lira da primeira parte Marilia e o Deus Cupido formam uma só pessoa A crença no Amor advém da idéia que habita o poeta, a idéia brotada da sua condição de sensitivo e de homem culto que edifica na mente uma ficção ou ideal (o do amor) e projeta-o e o concretiza em Marilia:

Tu, Marilia, Agora vendo
De amor o lindo retrato,
Contigo estarás dizendo
Que é este o retrato teu.
Sim, Marilia, a copia é tua,
Que Cupido é Deus suposto: se há Cupido, é só teu rosto,
que ele foi quem venceu.”

A obra é dividida em duas partes e a segunda parte das líricas o poeta escreveu após ser preso em 1789. Nessa fase Dirceu é o próprio centro dos poemas, e nos quais Gonzaga retrata um depoimento sobre sua situação pessoal revelando a autêntica índole do sentimento dele por Maria Dorotéia. Assim surgi uma poesia ultra romântica, isto é, não oriunda de um sentimento mitificado mas experimentado na carne e sublimado em poemas de alta pulsação estética. A valorização do subjetivismo do autor se presentifica na mescla personagem/autor.

O sofrimento gerado pela impossibilidade do amor (apelo sentimental) é outra característica do romantismo que, às vezes, culmina na morte como única solução:

“Meus olhos te viram, ah! Nessa hora
Teu Retrato fizeram,e tão forte,
Que entendo que agora
Só pode apagá-lo
o pulso da morte.”




sábado, 10 de outubro de 2009

Uma bunda inovadora


Não podemos esperar uma descrição tão incomum de outro poeta. Carlos Drummond é moderno e conseguiu que seu nome fosse associado ao novo. Acredito que descrever algo inusitado é tão criativo quanto brincar com as palavras. E isso o Drummond faz com muito humor e magnificamnte bem. O útlimo verso, composto por uma palavra, apresenta duplo sentido através de uma construção pouco usual. Pode-se interpretar essa palavra como o verbo redundar (superabundar), mas nesta nova contrução está, de certa forma, especificando essa bunda, o que lembra redonda, um adjetivo.


A bunda que engraçada

A bunda, que engraçada.

Está sempre sorrindo, nunca é trágica.


Não lhe importa o que vai

pela frente do corpo. A bunda basta-se.

Existe algo mais? Talvez os seios.

Ora – murmura a bunda – esses garotos

ainda lhes falta muito que estudar.


A bunda são duas luas gêmeas

em rotundo meneio. Anda por si

na cadência mimosa, no milagre

de ser duas em uma, plenamente.


A bunda se diverte

por conta própria. E ama.

Na cama agita-se. Montanhas

avolumam-se, descem. Ondas batendo

numa praia infinita.


Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz

na carícia de ser e balançar.

Esferas harmoniosas sobre o caos.


A bunda é a bunda,

redunda.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Oração literária


ORAÇÃO A TERESINHA DO MENINO JESUS


Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha... Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No
Pelo sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!...
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.

(Manuel Bandeira)


domingo, 2 de agosto de 2009

Inércia

Uma rua nua e deserta
Alerta! Um caminho...
Ninguém nessa merda
Anda! Estão parados no ninho

Andar: um passo após o outro
Nenhum mistério...
Muitos caminhos soltos
E todos para o cemitério!

sábado, 25 de julho de 2009

Quem conta um conto...


Narrar é uma arte! Confesso que essa afirmação me deixou um pouco confuso. Pois será que toda narração é uma arte? Mesmo aquelas em que não há nenhum trabalho minucioso com as palavras ou um trabalho com formas e formas?

Há varias formas prosaicas para narrar: romances, contos, novelas, cartas, etc. Mas não destaco essas formas como as mais sublimes. O que é essencial no ato de narrar é o narrador. Ele é o pai da criação e o mais cuidadoso intermediário entre a história e o espectador! Amigo íntimo das palavras, o narrador revela sua visão de mundo e transmite ideias filosóficas, religiosas ou mesmo aquelas sem cunho científico. Centrado na figura do narrador o narrar se torna artístico. E acredito que quanto mais o narrador se envolve na história melhor é a narração. Narrar é uma arte quando se encontra com narradores dinâmicos e cheios de experiências como Dom Casmurro e Riobaldo, personagens inesquecíveis da literatura brasileira...

Não pretendo assim desqualificar a narrador que divisa o mundo na terceira pessoa, pois esse afastamento da realidade é fundamental em algumas histórias ou para outras pretensões literárias. Os escritores realistas e naturalistas não me deixam mentir. Por outro lado quero exaltar o narrador em primeira pessoa. Aquele que com suas emoções altera a narração. Contar é muito dificultoso, é a afirmativa de Riobaldo, narrador-protagonista da obra Grande Sertão: Veredas, e ele acredita que a narração se torna mais difícil não pelo tempo que aconteceram as coisas narradas, mas pela astúcia que tem certos fatos de saírem dos seus lugares.

Em primeira pessoa o narrador de onisciente passa à testemunha e presença numa história que nunca é a mesma, pois passou pelo crivo dos sentimentos do narrador. No narrar em primeira pessoa o homem é a única verdade científica, único objeto de percepção. A riqueza psicológica, a nostalgia, a reminiscência e o conflito com o mundo narrado confere a esse narrador o poder de tocar o mundo e os interlocutores como um observador único.

No trecho abaixo Riobaldo exemplifica o poder do narrar em primeira pessoa e de controlar o tempo e o espaço na lembrança. Mas uma advertência convém fazer àquele que pretende ler ou ouvir uma narração em primeira pessoa: desconfie sempre do narrador, pois ele é um fingidor e artista...

“Agora, que mais idoso me vejo, e quanto mais remoto aquilo reside, a lembrança demuda de valor, se transforma, se compõe, em uma espécie de decorrido formoso. Consegui o pensar direito: penso como um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo... Quem me entende? O que eu queria. Os fatos passados obedecem à gente; os em vir também. Só o poder do presente que é furiável?” (ROSA, 2006, p. 343).

terça-feira, 14 de julho de 2009

EU TERIA UM DESGOSTO PROFUNDO / SE FALTASSE O FLAMENGO NO MUNDO


Ruy Castro é um grande cronista brasileiro. Desenvolveu a mais importante biografia de um jogador, Mané Garrincha: Estrela Solitária. O literato gosta de futebol e grande parte de sua obra é voltada para esse tema e, acima de tudo, apresenta um coração rubro-negro.
Segue um trecho do livro “Flamengo. O Vermelho e o Negro” o qual conta à história do maior clube brasileiro...

“A oposição não se conforma, mas não pode fazer nada: o Flamengo é um caso de amor entre milhões e o Brasil. Um dia, quando se mergulhar de verdade nos fatores que, historicamente, ajudaram a consolidar a integração nacional, o Flamengo terá de ser incluído. Durante todo o século XX, ele uniu gerações, raças e sotaques em torno de sua bandeira. Ao inspirar um rubro-negro do Guaporé a reagir como um rubro-negro do Leblon (com os mesmo gestos e expletivos, e no mesmo instante), o Flamengo ajudou a fazer do Brasil uma nação.

Mas o Flamengo não é uma abstração histórica. É um complexo de carne, ossos, tendões, músculos. Quando se fala nele, vêm à mente os heróis que, no decorrer das décadas, têm vestido sua camisa e formado times de sonho. Homens como Abelha; Bigu, Onça, Ronaldão e Tinteiro; Manteiga e Dendê; Sapatão, Foguete, Bujica e Beijoca.

Epa! Desculpe, peguei a lista errada! Esse é o time do pesadelo. A lista certa é: Raul; Leandro, Domingos da Guia, Reyes e Júnior; Carlinhos e Zizinho; Joel, Leônidas da Silva, Zico e Dida.

Falando sério, poucas instituições serão tão abrangentemente nacionais quanto o Flamengo - a Igreja Católica, sem dúvida, é uma delas, e, talvez, o Jogo do Bicho. E olhe que o Flamengo não promete a vida eterna nem o enriquecimento fácil. Ao contrário, às vezes mata de enfarte e, quase sempre, só dá despesa. Mas uma coisa ele tem em comum com a religião e o bicho: a fé. Esta é a matéria-prima de que as três instituições se alimentam. Mas com vantagem para o Flamengo, porque a igreja só paga dividendos depois da morte e o bicho tanto pode dar quanto não dar - já o Flamengo costuma pagar seus dividendos espirituais toda quarta e domingo. Em termos de alcance dos agentes dessa fé, então, não há comparação possível: o padre e o bicheiro são personagens locais, ao passo que os jogadores do Flamengo, via rádio ou TV, cobrem todo o território e são heróis (ou vilões)nacionais.

Daí ele ser onipresente. O Rio foi seu berço, mas sua casa é o Brasil. Sua camisa vermelha e preta viaja de canoa pelos igarapés; galopa pelas coxilhas; caminha pelos sertões; colore todas as praias; está nos barracos das favelas e nas coberturas tríplex. Suas cores vestem famosos e anônimos, bandidos e vítimas, corruptos e honestos, pobres e grã-finos, idosos e crianças, os muito feios e as muito bonitas. De repente, materializam-se nos lugares mais inesperados: já estiveram nas mãos de Frank Sinatra, no papamóvel de João Paulo II, nos peitos de Madonna. Mas, principalmente, tomam os estádios, em tantas tardes e noites quantas o Flamengo entrar em campo, não importa onde.

Donde talvez não seja cientificamente exata a frase que, de tão usada, logo se tornaria clichê: a de que "o Flamengo é uma nação" - frase criada pelo deputado federal cearense Walter Bezerra de Sá há mais de trinta anos. Mais exato, talvez, seria dizer que, ao contrário, a nação é que é Flamengo. Segundo pesquisas veiculadas por órgão insuspeitos, o Flamengo é o clube de maior torcida do Brasil por qualquer categoria que se queira estudar. Você escolhe: região, sexo, faixa de idade, nível de renda, cor da pele, plumagem política, grau de escolaridade, QI ou quantidade de dentes - é maioria entre os desdentados e os que nunca tiveram uma cárie. Sua presença no Rio é esmagadora: 42% dos cariocas são Flamengo. O restante se divide entre os que se repartem pelos outros clubes e os que, por esnobismo ou enmui, não se interessam por futebol.

Mas sua torcida não se espreme entre a montanha e o mar. Ao transbordar para todos os estados do Brasil, muitas vezes supera a dos próprios times locais. No norte e no nordeste, é esmagadora. Em Brasília, é, proporcionalmente, maior até do que no Rio. Em SP, é mais numerosa do que a da tradicional Portuguesa. É forte até mesmo no sul, onde os times de fora não costumam ter vez.

E existem quase cem clubes, profissionais ou amadores, de todos os estados do Brasil, chamados Flamengo.

Bolas, por que não dizer logo? É, disparado, a maior torcida de futebol do mundo. Quando se pensa que, na Espanha, o clube mais popular é o riquíssimo, sério e bem administrado Barcelona, tem-se vontade de chorar. A torcida do Flamengo não é apenas maior que a do Barcelona - é quase igual a toda a população da Espanha! E só por isso deveria ser sagrada para os indivíduos que uma minoria transforma em presidentes do clube.”

"Flamengo. O vermelho e o negro" Ruy Castro - Editora Ediouro (2004)

domingo, 28 de junho de 2009

VIAGEM PELO SERTÃO DESNORTEADO

O sertão na obra Grande Sertão: Veredas assume conceituações de um lugar físico localizado entre Minas Gerais, Goiás e sul da Bahia com sua vegetação e habitantes. Por outro lado, esse mesmo sertão físico assume características individuais.
Guimarães Rosa escolhe o sertão como espaço pois é nele que o homem assume a sua espontaneidade, realizando a sua profunda instintividade humana.

“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador.” (ROSA,2006, p. 8)

“Cidade acaba com o sertão. Acaba?” (ROSA, 2006, p. 167)

“Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!” (ROSA, 2006, p. 19)

“Sertão. Sabe o senhor: Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...” (ROSA, 2006, p. 25)

“O sertão é do tamanho do mundo.” (ROSA, 2006, p. 73)

“O sertão está em toda parte.” (ROSA, 2006,p. 8)

A viagem pelo sertão de Rosa é mágica e misteriosa!